Page 16 - RETALHOS DE UMA VIDA
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uma golfada de vento passa sobre elas. Poder escutar os pingos
da chuva chegando e tamborilando no quintal e nos telhados das
casas. Poder captar o delicioso som das gargalhadas de uma
criança inocente, o miado pidonho de um gatinho ou o latido
estridente de um cão vigia. O delicioso murmurar das águas de
um rio que correm suavemente sempre na mesma direção.
Enfim, retirar tudo de bom que este mundo e a natureza me
oferece todos os dias. Esta abelhinha durante todos os anos foi
acumulando num cantinho de minha alma pequenas poções de
mel extraídas destas belezas, e sem que eu percebesse foi
servindo de alimento durante todas as vezes que minha boca
queimava com o gosto do fel. As levezas destas lembranças
sempre conseguiam adoçar os meus lábios e o fel se esvaía.
Não sei se por este motivo, nunca consegui ficar com raiva
de alguém por muito tempo. Me transformei em uma pessoa da
paz. Não quero ter inimigos. Sei que nem todos me apreciam,
mas assim é viver, somos diferentes, mas sempre tem de existir
o respeito, pois este é o meu lema.
Nunca fui perfeita, cometi muitos erros, mas sempre tentei
corrigi-los quando possível, mas quem não erra? Acredito que
muitos deles eu nem percebi haver cometido, sou humana e nós
todos cometemos erros, mas reconhecê-los acredito que seja uma
virtude. Eu sempre tentei, não sei se consegui meu intento.
Foi assim que fiz durante toda minha vida. Por esse
motivo, sempre tinha reservas suficientes para me erguer e
continuar a viver, mesmo depois de grandes derrotas. Sempre
restava um pouco de mel para adoçar a amargura de meus dias.
Quando a dor passava, restavam os mantimentos colhidos pela
pequena formiguinha trabalhadeira para alimentar a minha alma
e me tocar para a frente.

