Page 55 - RETALHOS DE UMA VIDA
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Maria “Nilza” de Campos Lepre
com esmero na cabeça desta velha que se encontra à minha
frente.
Sem dúvida nenhuma, esta não é a minha imagem. Não
aceito que este seja o reflexo de minha pessoa. Bem lá no fundo,
no íntimo de meu ser, habita a mesma jovem de muitos anos
atrás; e, é assim que continuarei a me ver até o final de meus
dias.
Graças a Deus, não envelheci intelectualmente. Raciocino
melhor agora do que quando jovem, pois, através dos anos,
acabei ficando mais sábia. Nunca parei de estudar, ler e aprender
tudo que se me apresentasse de interessante.
Durante esta minha caminhada, adquiri o hábito de
incorporar à minha existência, tudo de bom que o mundo e as
pessoas podiam me oferecer.
Agora posso afirmar que sou uma pessoa de grande
sabedoria. Sou muito mais poderosa do que quando, no vigor da
juventude, acreditava saber tudo sobre tudo e sobre todos.
Principalmente, saber tudo sobre a vida.
Ao longe, ouço o som de um trovão.
O tempo está mudando.
Os galhos das árvores da praça se debatem com uma
ventania que antecede a chegada da chuva. Aos poucos, vou
sentindo o odor de terra molhada. É a chuva que vai se
aproximando de mansinho; uns pingos aqui, outros acolá e vai
aumentando, gradativamente, até se tornar torrencial.
O ruído da água caindo no teto das casas vai, aos poucos,
me acalmando. O som da enxurrada escorrendo pelas sarjetas
relembra o ruído de um pequeno riacho.
A água que desce vai lavando a sujeira acumulada por dias
no asfalto.
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